Terramel, cujo blog é reproduzido no GnuLinuxBrasil.org, traduziu o artigo “It’s not the Gates, it’s the bars”, escrito pelo criador do Projeto GNU e da Free Software Foundation, Richard Stallman, acerca do bafafá da mída em torno da aposentadoria de Bill Gates.
“Dar tanta atenção à aposentadoria do Bill Gates é não entender o ponto. O que realmente importa não é o Gates e nem a Microsoft, mas o sistema anti-ético de restrições que a Microsoft, assim como muitas outras companhias, impõe aos seus consumidores.
Esta declaração pode te deixar surpreso, já que a maioria das pessoas com interesse em computadores tem fortes sentimentos em relação à Microsoft. Homens de negócios e seus políticos domados admiram seu êxito em construir um império sobre tantos usuários de computador.
Muitos de fora do campo da computação creditam a Microsoft pelos avanços sobre os quais ela apenas levou vantagem, como por exemplo, tornar os computadores baratos e rápidos e a comodidade das interfaces gráficas.
A filantropia do Gates na área de saúde para países pobres recebeu boas críticas de algumas pessoas. O jornal LA Times denunciou que sua fundação gasta apenas de 5% a 10% de seu dinheiro anualmente e o resto é investido as vezes em companhias que causam degradação ambiental e doenças nos mesmos países pobres.
Muitos da área da computação odeiam o Gates e a Microsoft. Eles têm várias razões para isso.
Aliciar Fundos
A Microsoft persistentemente tem comportamentos anti-competitivo e já foi condenada por isso três vezes. George Bush, que livrou a Microsoft de sua segunda condenação pelos Estados Unidos, recebeu da Microsoft a oferta de fundos para as eleições de 2000.
Muitos usuários odeiam o “imposto Microsoft”, os contratos de varejo que fazem você pagar pelo Windows no seu computador mesmo que não vá usá-lo. [No Brasil esta prática é ilegal, pois se trata de “venda casada”. Entre em qualquer loja que venda computadores. Quase todos já vêm com o Windows embarcado. Guicolandia]
Em alguns países você pode receber um reembolso, mas o esforço requerido para isso é desencorajador.
Existe também a DRM (Digital Restrictions Management): características de alguns softwares criadas para te impedir de acessar livremente seus arquivos. Aumentar a restrição dos usuários parece ser o maior avanço do Vista.
Incompatibilidades Gratuitas
Também existem as incompatibilidades gratuitas e os obstáculos na hora de interoperar com outros softwares. É justamente por isso que a União Européia exigiu que a Micro$oft publicasse as especificações de seus produtos.
Este ano a Microsoft criou comitês de padrões com seus partidários para conseguir a aprovação da ISO ao seu incômodo, não implementável e patenteado “padrão aberto” de documentos. A União Européia está atualmente investigando isso.
Essas ações são intoleráveis, claro, mas não são eventos isolados. Elas são sintomas sistemáticos de um mal ainda mais profundo que a maioria das pessoas desconhece: Software proprietário.
O software da Microsoft é distribuido sob licenças que mantêm seus usuários divididos e impotentes. Os usuários ficam divididos porque são proibidos de compartilhar cópias com qualquer outra pessoa e ficam impotentes porque não têm o código fonte para permitir aos programadores ler e mudá-lo.
Se você é um programador e quer mudar o software, para você ou para outra pessoa, você não pode. Se você é um empresário e quer pagar para um programador modificar o software de forma que atenda melhor suas necessidades, não pode. Se você copiá-lo para compartilhá-lo com seu amigo, o que é apenas um ato boa vizinhança, eles te chamam de “pirata“.
Sistema Injusto
A Microsoft quer nos fazer acreditar que ajudar o próximo é o equivalente moral a atacar um navio.
A coisa mais importante que a Microsoft fez foi promover esse sistema social injusto.
Gates é pessoalmente identificado com esse sistema, devido a sua infame carta aberta onde repreendeu usuários de microcomputadores por dividir cópias de seu software.
Ele disse, de certa forma, que “se vocês não permitirem que os deixe divididos e impotentes, eu não escreverei mais softwares e vocês ficarão sem nenhum. Se rendam a mim ou estarão perdidos!”
Mudança de Sistema
Bill Gates não inventou o software proprietário e milhares de companhias fazem o mesmo. É errado, não importa quem faça.
Microsoft, Apple, Adobe, e o resto, oferecem softwares para garantir seus poderes sobre você. Uma mudança nos executivos ou nas empresas não é importante. O que é necessário é uma mudança neste sistema.
É com isso que o movimento do Software Livre se preocupa. “Livre” se refere à liberdade: nós escrevemos e publicamos softwares que garantem ao usuário a liberdade de copiá-los e modificá-los.
Nos fazemos isso sistematicamente, pela liberdade: alguns de nós pagamos, muitos como voluntários. Nós já temos sistemas operacionais completos, incluindo o GNU/Linux.
Nossa meta é entregar uma completa variedade de softwares livres úteis para que nenhum usuário de computador seja tentado a abrir mão de sua liberdade para conseguir algum software.
Em 1984, qunado comecei com o movimento do Software Livre, quase nem sabia da carta do Bill Gates [Stallman nunca fez parte do movimento hobbista, por isso, só veio a tomar conhecimento da carta de Bill Gates anos mais tarde. Guicolandia.]. Mas fiquei sabendo de reclamações parecidas de outros e tive uma resposta: “Se seu software vai nos manter divididos e impotentes, por favor não o escreva. Estamos melhor sem ele. Descobriremos outra forma de usar nossos computadores e preservar nossa liberdade.”
Em 1992, quando o sistema operacional GNU foi completado com o kernel Linux, você tinha que ser um mágico para conseguir rodá-lo. Hoje o GNU/Linux é amigável: em algumas partes da Espanha e da Índia, é padrão nas escolas. Dezenas de milhões de pessoas o usam pelo mundo. Você pode usá-lo também.
Gates pode ter partido, mas as paredes e barras do software proprietário que ele ajudou a criar continuam, por enquanto.
Cabe a nós desmontá-las.”